quinta-feira, janeiro 02, 2003

AVE H�MUS

Vou falar de pentimento. Voc� pega essa idosa aqui, descasca com a unha, como se descasca levemente uma planta para ver se ainda vive, e encontra uma personagem de 1968, o ano que n�o terminou (Zuenir Ventura). E com perguntas no sentimento: concluiremos agora em 2003,4,5,6, o ano de l968? Ou haver� uma grande e constante nossa amiga dedicada decep��o? Quando o primeiro servidor p�blico do Brasil abaixou-se para pegar os �culos do Fernando que foi um cardo em nossas bocas, no momento em que ao retirar a faixa presidencial numa emo��o insuspeitada em homem t�o Cardoso, ele esbarra com seu pr�prio bra�o em seus pr�prios �culos de olhar e os derruba, como quem derruba uma m�scara que lhe acoberta as fei��es, n�o havia servilismo de um retirante nordestino, mas delicadeza e sensibilidade lembran�a de um tempo em que o ser humano era muito importante e fiquei certa de que se meus �culos ca�ssem ele tamb�m se abaixaria para peg�-los.

E quando ele espalmou, quase esbarrando as m�os com ternura no corpo da Marisa e disse voc�s a est�o vendo t�o bonita assim hoje, eu lembrei de Carolina do Chico, impossivelmente da garota de Ipanema do Tom e do Vin�cius e de Minha Gente, tamb�m do Chico. E sentada na minha cadeira de sub�rbio conversando com as mesmas vizinhas da d�cada de 60 nos arrepiamos de emo��o porque nos parecia que estavam sendo resgatados sentimentos esquecidos como o amor, a cumplicidade o companheirismo, como se um novo tempo, muito novo por ser t�o antigo, e que foi interrompido por palavras de ordem e rajadas de metralhadoras retomasse seu lugar. E pud�ssemos todos passear com nossos amores de m�os dadas pelas pra�as. Falei bem baixinho para Marly Medalha, viu amiga, n�o foi em v�o sua loucura, como disse a Tereza Cruvinel o Lula somos n�s l�!

E l� aonde, voc� me pergunta? L�!!! No sonho imposs�vel, na roda viva das opini�es, quando carcar�s devoravam nossos f�gados de sonho e diz�amos com toda a certeza do mundo: n�o acredite em ningu�m com mais de trinta anos. L�, onde ordenhamos a utopia, aleitamos nossos desejos de povo com fraternidade de flores cores e sons. L� onde a tristeza era dividida e a alegria uma promessa de igualdade. L� que pode estar come�ando ser aqui!
Escutem M�rcia Falc�o, Sergio, Ricardo, D�cio, Suely, Pimentel, Alcione (sempre c�tica ainda?) Zil�ia, Norma, escutem meus mortos e meus vivos dos idos, escutem se n�o � o Adelmo tocando um sambinha, no que o S�rvio grita pro Bum que precisa do carro dele para levar a c�ssia e muita cerveja geladinha para ouvir a Maria Alcinda e Ode a Alegria e dan�ar para descer o ano novo? E ainda tem um que me chama de dona Esther quando eu pensava ser ainda de vinte anos...

Quando o rolls roice recusou-se a carregar o peso do povo subindo a ladeira para a luz de um novo ano vi a elite cansada, aperreada, precisando n�o mais de reparos e sim de trocas, tipo uma por��o de caviar pelo sabor de sua macaxeira. E vi, n�s vimos o povo travestido de seguran�a empurrar o povo presidente para fora do fim do t�nel. Quero falar de esperan�a e estou sentindo. Quero dizer de amor. E ele penetrou nos poros da cidade concreta de Niemeyer e pingou sobre a terra de Juscelino e cantamos n�s as vizinhas sentadas no fim de tarde em nossas cadeiras de ruas, na periferia que hoje � cidade, pensando na esperan�a �como poderei viver, como poderei viver, sem a tua , sem a tua, sem a tua companhia?�

Estou dizendo de n�s. De coletivo, de plural. De boca cheia. Que saibamos todos aproveitar com zelo a nova oportunidade pois � raro voltar numa mesma gera��o alguma coisa que j� passou. Tipo cometas, alinhamentos de planetas, sonhos... e deixemos pulsar nossos suburbanos e isoneiros cora��es, plenos da sabedoria de ervas, acreditando em quem tem mais de trinta anos, pois precisamos restaurar o passado, neste exato momento em que a seiva da silva se aloja no peito do pa�s. Ave h�mus!!!

PS.: � bom notar que o discurso de posse teve menos um som pol�tico,mesmo quando pol�tico, e mais de poesia inaugurando tempos de prosa e verso.

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