domingo, janeiro 26, 2003

eu pensando aqui estava. olhando minhas m�os. foram jovens um dia. dedos compridos. m�os longil�neas. me agradavam. hoje eu as olho e pergunto: m�os, quantos caminhos voc�s andaram, quantas peles outras que n�o a minha tocaram com afago, carinho, eu sei m�os que voc�s nunca foram agressoras, e elas mudas. mas falam. falam entre si e riem de mim. para que eu n�o escute falam baixo de dedo para dedo, unha com unha, assim: de ruga para ruga de mancha para mancha e um dedo que foi meio que esmagado por uma bola de boliche por milagre n�o me olha enviesado, mas � um dedo em que falta a bochecha da ponta, a frase que emoldura a unha.

essa a m�o esquerda. a direita foi pega por um cachorro e estra�alhada. nela h� buracos, valas profundas, cicatrizes aterrorizantes e a curva entre o fura-bolos e o polegar ficou interrompida num ponto para recome�ar tropega em outro. e n�o h� como esticar perfeitamente estes dedos. eu fa�o com que se toquem e elas se acariciam e se gostam. sinto que o amor entre elas se irradia por mim, fere meu umbigo. firmes. fortes m�os coradas.

que bom ter m�os! como a natureza foi pr�diga comigo dando-me duas m�os. que eu posso ter estragado pelos caminhos da vida, mas viveram! e por t�-las admiro profundamente quem faz o mesmo que elas sem as possu�rem. recebi este ano um monte de cart�es de natal pintados por p�s e bocas de pessoas que n�o tinham m�os. fiz um exerc�cio: amarrei os bra�os para traz e testei as minhas possiblidades. quanta trag�dia na minha incapacidade de andar, olhar, ouvir, sentir, s� porque me faltavam as duas m�os. depois, j� que estava com a vis�o reduzida por faltarem-me m�os, cobri os olhos com uma venda e perdi-me. perdi-me de mim mesma e gritei correndo pelas janelas quem sou eu? onde estou?

os cachorros latiram, as galinhas cacarejaram, os esquilos da mong�lia que rodavam em sua roda de brinquedo rodaram mais ainda e a maritaca soltou uma sonora risada. pedi que enfiassem algod�es nos meus ouvidos. e senti um medo t�o estranho, arcaico, como se eu estivesse fundando naquele instante uma nova ra�a a quem seria exigido o exerc�cio de plenos sentidos para sobreviver. enfim estava quase imobilizada. sem ajuda n�o poderia tirar a venda dos olhos nem o algod�o dos ouvidos e sequer desamarrar as m�os.

n�o sei o que � melhor. n�o ter m�os ou possuir duas m�os esquerdas, como acontece em certos dias de arraso na cozinha, tr�s direitas e uma saindo pelo meio da barriga , a mais desastrada que derruba no ch�o toda a comida. ou trope�ar em meus pr�prios p�s ou ser tomada por uma gagueira que me obriga a parar de falar, respirar fundo e recome�ar tudo de novo. toco novamente minhas m�os, m�es de meu destino, al�vio do meu desespero e a saliva que faz com que eu reconhe�a minha boca como minha.

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