Adivinha quem chegou de surpresa c� em casa? O Idelwessel Martins Seabra. Parcialmente sumido de corpo presente h� muito anos. Uma vez mandou-me colada no postal uma unha perdida num boliche do Arkansas. De outra feita chegou uma mecha de cabelo azul , sim azul, que usava em Amsterd�. E para c�mulo dos c�mulos enviou-me num recipiente uma de suas pr�statas, devidamente conservada, acompanhada de um tumor benigno. Pedia-me para guardar a prenda at� seu retorno.
E os anos se passavam. Idelwessel ficou um tempo sem dar not�cias. E o pote com a pr�stata ficou guardado. At� que Lidiane o descobrisse. A tal mucama daqui de casa. Como ela mesma se denomina. A Lidiane � uma negra alta, de narina larga, voz forte, poderosa, e t�o larga que o Lima, que vem filar restos de guardados como canos velhos, privadas rachadas... um nordestino que mede pouco mais de 1.50 diz que o sopro dela pode derrub�-lo. Mas os olhos de Lidiane s�o de mel puro. E o Lima � um exagerado.
Bem, Lidiane que tem mania de inventar comidas novas viu enfim a pr�stata em conserva. Acrescentou vagem , cenoura, alho, cebola, piment�o e pimenta. Tudo colhido c� em casa, sem agrot�xico. Completou o pote com vinagre de ma�� e uma boa dose de azeite virgem. E enterrou. Enterrou na terra, como mandam as antigas tradi��es. O tempo passou novamente. E hoje, quando o Corinthians fez 6 a 2 sobre o Atl�tico Mineiro e eu saboreava um El Gray chega o Idelwessio Martins Seabra.
Chega sem avisar trazendo seu grupo fiel de amigos. E toca a fazer surgir comes e bebes. Pede. Exige. Lidiane vai ao quintal desenterrar rabanetes, r�culas e o tal do picles. Idelwessio chegou a perguntar que carne � esta? E sem esperar resposta...nhac! e lambeu os dedos. Pois as formalidades da educa��o j� tinham ido h� muito para o brejo.Rolou trance, hard rock, eletr�nica e eu j� sentia que n�o era mais minha casa. At� que o Idelwessio lembrou: onde est� minha pr�stata? E contou para o grupo a hist�ria.
Fui procurar e cad�? Lidiane gritei, onde est� o vidro que guardei atr�s da lou�a? Estava aqui. Tenho certeza! Aquele? perguntou ela. � aquele!? Ele comeu se era aquele que eu fiz picles ... Branco geral. Sil�ncio. Debandada. Idelwessio olhou para mim com o �dio sangrando pelos olhos e me disse: espera a volta ! Mas que volta? Ser� que n�o d� para ele entender que eu guardei at� no arm�rio da lou�a de pouco uso e foi a Lidiane quem se meteu a fazer picles? E meu deus, depois de tanto tempo...
Idelwessio era prot�tico. Fez o curso t�cnico. Numa �poca em que o Brasil inteiro precisava de dentaduras ele ganhou muito dinheiro. Durante as elei��es ent�o faturava. Porque era aos montes centenas de pr�teses que fazia para os pol�ticos oferecerem a quem neles votassem. Depois aprendeu tamb�m a fazer pr�tese de perna, de bra�o e at� de dedos (n�o bem feitas, mas quebrava o galho). Quando se aposentou tinha a burra cheia e foi viajar pelo mundo. E me mandava seus restos como se eu fosse um arquivo morto. Estou deletando Idelwessio definitivamente da minha vida. Mas j� vieram me contar, esses amigos que est�o sempre prontos para levar e trazer hist�rias, que ele vai fazer um blog para derrubar o meu. Pobre de mim! um blog t�o caidinho que mal d� para ser derrubado... dizem que ele vai fazer o blog do prot�tico.
Que fa�a! Esse cara � mais pat�tico do que o imagin�vel. Diz que tem amigos pol�ticos e que faz e acontece. Diz que tem amigos jornalistas e que faz e acontece. Com essa hist�ria ia at� esquecendo de contar o que aconteceu domingo por aqui. Um vento t�o forte que desgalhou todas as �rvores, derrubou algumas, destelho as casas e, por fim, desabou uma chuva pesada misturada com gelo que quebrava as telhas e machucava as plantas. Foi um esc�ndalo. Um mini furac�o. As pontas das �rvores rodopiavam enlouquecidas. O ar ficou com um cheiro de eucalipto de seiva de �rvores um cheiro que nunca cheirei antes. E depois o c�u ficou dourado como quem sorri de alma lavada. Machuca e assusta estas tempestades. Hoje vou catar os passarinhos que devem ter ca�do dos ninhos e ver se salvo alguns. Que domingo! S� porque o Corinthians bateu de do 6 a 2 no Atl�tico Mineiro.
II
Ontem, segunda-feira, foi o dia de salvar do estrago da chuva de domingo o que poderia ser recuperado. Os telhados foram refeitos, as plantas derrubadas pelo vento foram cortadas e guardadas para lenha no inverno, a lama retirada, as samambaias que ca�ram de seus suportes recuperadas e um calor insuport�vel mais o sol que pinicava a augurando mais tempestades completava o mau humor do dia. N�o � tempo de calor aqui Caxambu. Ali�s, nunca � tempo de um calor desse tipo aqui em Caxambu. Dormi com as janelas abertas. E pensando que j� � tempo de comprar um ar refrigerado. O clima est� definitivamente alterado.
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