mais uma vez meu amigo Herm�nio Miranda enriquece este bloco.Ele recebeu a mat�ria da jornalista Eliana Thom�. Foi publicada hoje na Folha /Ilustrada (Folha de S�o Paulo).
HIST�RIA
Sob a �tica da dupla de generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, o jornalista Elio Gaspari escreve a mais ampla hist�ria do regime militar.
O bi�grafo da ditaduraArquivo Nacional
M�RIO MAGALH�ES
DA SUCURSAL DO RIO (escreveu)
Terror das bibliotecas, dos arquivos e dos museus, o mofo deu uma contribui��o relevante � hist�ria do Brasil quando atacou, em 1985, a garagem do s�tio do general reformado Golbery do Couto e Silva (1911-87).
O general criara o SNI (Servi�o Nacional de Informa��es) em 1964, coordenara-o at� 1967 e chefiara o Gabinete Civil da Presid�ncia da Rep�blica de 1974 a 81.
Na garagem do s�tio, nos arredores de Bras�lia, guardava em torno de 25 caixas com 5.000 pap�is acumulados nos anos de poder. Quase tudo confidencial, cultivado por Heitor Aquino Ferreira, ex-secret�rio de Golbery e de Ernesto Geisel (1907-96), presidente de 1974 a 79.
O arquivo que mofava foi entregue a um jornalista amigo dos tr�s, Elio Gaspari, cuja casa n�o tinha p�-direito capaz de receber a rel�quia, caso as caixas fossem empilhadas umas sobre as outras.
No ano anterior, ao fim de uma temporada de estudos de tr�s meses em Washington (EUA), Gaspari jogara a toalha na id�ia que o embalava: compor um ensaio de cem p�ginas sobre o "Sacerdote" (Geisel) e o "Feiticeiro" (Golbery). Queria destrinchar o paradoxo: por que conspiradores de proa de 1964 se tornaram os art�fices da pol�tica da distens�o que resultaria no fim do regime militar (1964-85). Descobriu que s� daria conta em um livro. Errou longe.
Dezoito anos depois do engavetamento do ensaio, chegam hoje �s livrarias os dois primeiros livros dos cinco nos quais Gaspari, 58, vai narrar da trama para a deposi��o do governo constitucional de Jo�o Goulart (1919-76) � posse de Jo�o Baptista Figueiredo (1918-99) na Presid�ncia, em 1979.
Os volumes iniciais v�o de 1964 a 1974. Sob a rubrica comum de "As Ilus�es Armadas", intitulam-se "A Ditadura Envergonhada" e "A Ditadura Escancarada". De largada, foram impressos 50 mil exemplares de cada um. A Companhia das Letras investiu R$ 1,1 milh�o nos livros, sem contar o custo da equipe da editora, onde alguns funcion�rios deram plant�o exclusivo para o projeto.
Os dois livros seguintes, da investidura de Geisel � crise militar de 1977, j� est�o escritos. Pelo menos um deve sair no ano que vem. O �ltimo, que se estender� at� a un��o de Figueiredo, ainda n�o foi digitado no computador de Gaspari, o s�timo modelo em 18 anos. Nele est�o perto de 30 mil fichas que sistematizam as informa��es de cinco centenas de livros, 200 entrevistados, milhares de p�ginas de documentos, publica��es jornal�sticas e arquivos como o de Golbery-Heitor Ferreira.
Com base nesse arsenal, Elio Gaspari gestou o que nasce na condi��o de biografia incompar�vel do ciclo dos coturnos, a despeito da inten��o de p�r o ponto final seis anos antes de Figueiredo deixar a cena. E de o autor dizer que n�o pensou em escrever a hist�ria da ditadura.
Nunca se fez nada igual no Brasil, nem brasilianistas no exterior. Nem na produ��o historiogr�fica acad�mica nem na jornal�stica. S� notas de rodap�, no obsessivo rigor de n�o deixar dado sem a fonte respectiva, s�o 2.542.
Nunca o olhar foi t�o plural sobre um per�odo usualmente descrito pelos relatos de contendores. Gaspari desvenda o que ia pelos por�es da repress�o, pelos aparelhos (esconderijos) dos guerrilheiros e pelos pal�cios.
Isso permitiu-lhe enxergar simultaneamente o Milagre Econ�mico (era de prosperidade) e a tortura contra oposicionistas, ambos criaturas dos militares -e considerar que a viol�ncia foi o fen�meno determinante na caracteriza��o daqueles tempos.
Al�m da profus�o de revela��es obtidas em arquivos nacionais e estrangeiros e em depoimentos in�ditos, Gaspari ostenta trunfo raro nos c�rculos de historiadores e jornalistas. N�o ""briga" com os fatos para evitar o cr�dito a quem de direito: emprega como fio condutor de v�rios cap�tulos o que de melhor foi produzido sobre o assunto. N�o deixa de contar o que merece ser contado. Acrescenta o que apurou e cita escrupulosamente as fontes.
Garimpou tanto que o arquivo de Golbery, bem como um di�rio manuscrito de 1964 a 85 por Heitor Ferreira -que hoje vive em Teres�polis (RJ) e traduz livros- , n�o � protagonista dos primeiros volumes, mas os pontua com novidades. Ser� imprescind�vel a seguir, quando o "Sacerdote" e o "Feiticeiro" protagonizam a hist�ria como esp�cie de "her�is da abertura".
O primeiro livro come�a com a tentativa de golpe ensaiada pelo ministro do Ex�rcito Sylvio Frota em 1977, numa reconstitui��o � altura da excel�ncia de um cap�tulo do cl�ssico "Combate nas Trevas", de Jacob Gorender: o reencontro do comunista Carlos Marighella (1911-69) com o trotsquista Herm�nio Sacchetta (1909-82) na d�cada de 1960.
A diferen�a � que Gaspari repetiu v�rias vezes o feito, como ao expor o ocaso de Goulart -numa passagem de �pera-bufa, o general golpista Olympio Mour�o Filho (1900-72), depois de p�r o bloco na rua, almo�a em casa, veste o pijama e tira uma sesta.
Ao perfilar o SNI, Gaspari cita o documento em que o �rg�o delira ao cogitar uma invas�o de Portugal pelo Brasil em 1975. Com tanta informa��o e notas de p� de p�gina, soa como proeza a eleg�ncia narrativa.
Assim inicia o cap�tulo sobre o Ato Institucional n�mero 5, que endureceu o regime: ""�s 17h da sexta-feira, 13 de dezembro do ano bissexto de 1968, o marechal Arthur da Costa e Silva, com a press�o a 22 por 13, parou de brincar com palavras cruzadas e desceu a escadaria de m�rmore do Laranjeiras para presidir o Conselho de Seguran�a Nacional, reunido � grande mesa de jantar do pal�cio. Come�ava uma missa negra". No p�, as fontes.
Para divulgar o lan�amento, a editora n�o ter� o autor em sess�es de aut�grafos, entrevistas, programas de TV. Nascido em N�poles, It�lia, e criado na Lapa bo�mia do Rio, ele diz que o que tem a dizer escreveu.
Jornalista desde os anos 60, foi auxiliar de Ibrahim Sued em sua coluna social, editor de Pol�tica do "Jornal do Brasil" e diretor-adjunto da revista "Veja", da qual foi correspondente em Nova York. Hoje � colunista da Folha e de "O Globo". Segue trabalhando na hist�ria da ditadura -falta um volume-, com a ajuda da biblioteca de 6.000 livros e seu arquivo. S� o de Golbery preenche 16 gavet�es de ferro. Tudo lotando o apartamento que comprou no primeiro andar do pr�dio onde j� morava, em S�o Paulo. A "Biblioteca Malan", como batizou.
P�de adquirir o im�vel, afirma, gra�as � pol�tica de juros altos do presidente Fernando Henrique Cardoso, do ministro Pedro Malan e do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. Enquadrou as fotos dos tr�s, pendurou-as numa parede e, debochado, tascou a faixa: "Eterna gratid�o".
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A DITADURA ENVERGONHADA. Autor: Elio Gaspari. Editora: Companhia das Letras. Quanto: R$ 40 (417 p�gs.)
A DITADURA ESCANCARADA. Autor: Elio Gaspari. Editora: Companhia das Letras. Quanto: R$ 44 (507 p�gs.).
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