rápida ida à são lourenço. encontro tatiana que me pergunta pelo pai. ricardo augusto dos anjos; sua filha, desde seu aniversário, não consegue falar com você, eu também não. por favor diga aaaahhhhh. na livraria da sonia, a avalon, encontro o livro da rocco "correspondência" de clarice lispector.
e vou saborear um macarrão digno com molho de ervas e vinho no mario. enquanto aguardo folheio o livro. e de repente como se meus olhos fossem puxados pelo cartaz vejo colado na máquina de café “passo o ponto”. mas como mário? não dá, ele me reponde. mas como mário? insisto como quem não deseja acreditar no que ouve.
pois é o shopping antonio dutra, o maior da cidade, o mais tradicional, está falindo. a escada rolante há meses não funciona. as lojas do andar superior estão vazias. quem aluga uma loja paga apenas o preço do condomínio, em torno de cem reais. mas como mário? uma dia, quem sabe, quando o brasil tomar tento eu retorno.....
corro na sonia e pergunto se ela também pretende fechas as portas. por enquanto não. abaixei meu padrão de vida e vou tocando. alívio provisório. nessa aflição não reparei no gerente do unibanco andando de um lado para o outro falando ao celular. parei para olhar. e fiquei olhando. um sujeito baixo, magro, de pele morena com uma cor esverdeada e alguns pontos ferruginosos.
ria muito ao telefone. gostosas gargalhadas. ou falava em sussurros. às vezes alguma frase ou palavra era ouvida por mim para soçobrar em nova gargalhada. calça de flanela sobre sapatos mocassins. gelei. a calça era feita com uma flanela dura que não se aninhava no início dos pés caindo gostosamente. era um penhasco cinza abrupto com um vinco acentuado que não permitia escaladas. e o sapato não concordava com o resto da vestimenta.
a cor da pele devia ser por ficar muito tempo trancado, a famosa cor escritório. mas o mal gosto da roupa era gritante. e como sempre ao ver um homem baixinho meus olhos me desobedecem e percorrem seus documentos. só para confirmar que são volumosos compensando a baixa estatura. era o único feliz na lugar e naquela hora. andando de um lado para o outro fazendo caras e bocas ao celular. no caso dele a confirmação não veio. muito magro. coitado. já sei: a pele tem cor de couro velho esticada em sarrafos sujos pelo tempo.
a próxima estátua que for feita será certamente de um homem falando com suas tropas ou seu amor ao celular. aposto. usará terno e gravata e seus documentos estarão protegidos por roupas e não desnudados como faziam os antigos que podiam exibir sua anatomia privilegiada. como era bom no tempo da humanidade. quando todos os órgãos tinham sentido! antes de terem sido abolidos pela engenharia genética.
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