terça-feira, junho 24, 2003

tempo de morrer

no sábado por volta de uma hora lá estava ele de dentro da padaria curitiba, com um copo de cerveja na mão, olhando para algum horizonte interior. desligado do mundo à sua volta. bota de montaria, chapéu de palhinha e o semblante feliz de quem retornou de uma boa cavalgada. poderia ter parado ali para conversar com rogério, o dono da padaria, que também tem um haras e é doido por cavalos.

eu cheguei para comprar o pão. ele havia ido tão longe em seus pensamentos que falei um oi rápido. também não estava em dia de muita conversa... ele continuou perdido ou achado num horizonte que ultrapassava a barreira do posto de gasolina em frente, do prédio de apartamentos onde mora sua sobrinha e dos morros em formato de meia laranja mais além. estava satisfeito. disso tenho certeza.

há três anos perdera a mulher, cristina., e eu uma boa amiga. casara de novo para susto de todos em tão pouco tempo de luto. no ano passado seu filho que nascera logo e já estava com um ano morreu também, e ontem lá se foi ele pelo mesmo caminho. estava trabalhando no fórum e, repentinamente, aos cinqüenta e poucos anos, caiu de sua cadeira ao chão numa agonia de poucos segundos. enfarto fulminante.

o trabalhador cá de casa estava comentando. hoje tem três enterros na cidade. coisa nunca vista. três no mesmo dia! e quem morreu assuntei? o eduardo zaú. que eduardo? já fiquei assustada. em caxambu tem muito fernando , rodrigo de montão, adriano, bruno... mas eduardo tem pouco. e era ele mesmo. mas por que zaú? é o nariz ele respondeu. quem tem nariz assim a gente fala que é zaú.

a outra morte era da mulher de um antigo cabeleireiro da cidade, que já está aposentado, e o terceiro defunto o filho do engraxate que fica em frente da padaria da dona boneca, ao lado da farmácia central. “minha cunhada que é enfermeira disse que essas mortes acontecem por causa do frio. e no domingo geou... tanto que queimou o canteirinho de couves que fica logo na subida. a senhora não viu?” ele me perguntou.

não. não vi a geada, nem reparei que as couves estavam queimadas. tudo bem que, estranhamente, no domingo acordei quase às nove da manhã, eu que costumo acordar às quatro. mas quando fui deitar no sábado já estava um grau abaixo de zero depois de ter relido os sertões de euclides de uma assentada só. passei o sábado lendo.

agora estou pensando na sina dessa família. em três anos consecutivos três mortes de parentes fundamentais. e não penso mais que já sigo para o enterro, que costuma ir de cortejo andando até o cemitério. todos os mortos fazem este passeio por aqui. saem de suas casas onde estão sendo velados e dentro do caixão atravessam toda a cidade .

é bonito. a gente passa em torno do parque das águas inteiro, anda por uma alameda de quaresmas, vai por outra de sibipirunas, uma rua de extremosas chega na praça passando por hibiscos rosas, plátanos e eucaliptos. os homens cansados se revezando a carregar o caixão. e um som de prece como zumbido de abelhas por todo o trajeto. poucas lágrimas. mas muita dor. a gente daqui é comedida.



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