sábado, outubro 11, 2003

caneta tinteiro

toda manhã a caneta rola
cai da cama inunda-se de tinta
caneta antiga bebe em tinteiro
corpo bem feito pena macia
tão antiga! : aprecia um suicídio


toda manhã ela se atira
rola da cabeceira até os pés
da cama ou de um lado para outro.
está definitivamente marcada
por seus insanos vôos loucos.


normalmente cai de ponta
cabeça. algumas vezes de rabo
hoje jogou-se de lado, a puta,
sua traseira revela sulcos profundos
a cabeça cicatrizes das infames lutas.


o corpo trabalhado em fios d’ouro
não dispensa a tampa em seus ritos
de despencar no chão, metalizar o aviso
se assim não fosse a pena quase asa delta
bico longo, teria com a escrita algum atrito.


ela escreve como não o faz nenhuma bic
com a bunda para baixo e a pena para cima.
ao ser resgatada do precipício onde se atira
deixa nos dedos a sujeira de seu sangue roxo
que à primeira ablução escorre pela pia.


toda manhã ela se joga
quando a casa acorda
parece um desafio.
ou recusa em percorrer a rota
de traçar à esmo à sangue frio
palavras. como quem arrota
de estômago vazio.




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