sexta-feira, outubro 31, 2003

nico pichichica



pois não é?

nesta hora de dá dó. ele pegou a tigela. botou um punhado de arroz cozido. cheirou. tirou da moringa um fio d’água. limpou a boca com a manga. pegou na maleta carcomida. os pés rotos. e foi. indo como quem não arreda pé. andando pra frente como se fosse pra trás. um arrancado aqui uma bambeza de pernas os pés virando na direção contrária ao nariz, virando mesmo, assim virados para as costas do corpo. ele voltando mais que indo.

e a tarde caindo. a noite já se fazendo definitiva. e ele indo deixando a luz amarelada dentro de casa. desceu o degrau . que batedeira no peito. não. juz não fazia a homem assim tão vivido. deixou ela com a barriga molhada na pia da cozinha lavando os pratos os talheres como se nada, como se ele não se ia, ou como ela dizia eu me ia, eu me cheguei, eu me voltei. ele se ia.

quando viu o touro solto no terreiro refugou. era mandinga. lembrou os carros de traseiras vermelhas lumiando o asfalto na noite da grande cidade. lembrou do cheiro de monóxido de carbono. ouviu o buzinaço. nada mais deveria suportar. nada mais queria. ele nico pichichica que tinha varado estes sertões com boiada cada uma de tamanho maior que a outra domado cavalo bravo, amansado boi, treinado animal para puxar carro rangindo, não que ele era nico pichichica e nada tinha que ver com os cuidados de gente que mal conhecia.

ele ouviu uma louça cair no chão. quebrou ele assuntou pra si. vai ver ainda é presente do casamento... não que ele cuidasse de bibelôs. mas era precavido. hoje tem . amanhã quem sabe? cheirou no ar um cheiro de fruta cítrica. era ela. a dona do patrão. esvoaçando como lençol no varal em dia de vento. vamos seu nico senão a gente não chega hoje.

preciso tocar o touro. parecia até criança falando. mas nenhum gesto, nenhuma atitude, onde ele tinha se desencontrado? onde tinha perdido o pichichica do nico? pode ir homem que eu toco, a mulher falou brando, macio, como quem pede vorta. assustou. pois não é que ela tava com a barriga na pia? eu toco, ela garantiu.


seus pés seu nico. vão assim? sem calçado? ah dona! até nisso de meus pés a senhora se mete? o touro arranhou a terra com a unha. ta vendo dona? né má vontade. aqui só homem pra cuidar desses animais. ta vendo? é um animal esse ignorante na nossa frente. sabe-se lá o que anda fazendo aqui apartado das vacas?

e viu a baba descendo um fiapo um fiozinho de nada escorrendo da boca do touro. viu também os olhos remelentos e um fio traçado de brilho no focinho.

vou não dona. lá não tem da minha água. morro de sede.
a gente leva daqui seu nico.

nem se sabia assim . foi um gesto só. um safanão . arrancou os botões da camisa no que pegou os dois lados para mostrar o peito. e uma voz que nunca conhecera de quem é essa voz berrou aflita: enfia a faca aqui dona. daqui só saio morto.

a noite definitivamente havia caído. só a luz amarela se esgueirando pela porta brincando num pedaço de jardim que bordava a casa. e os olhos das pessoas e do touro. todos iguais. distinguidos no escuro por um pequeno brilho. de onde eles estavam capturando a luz? ela pensou. reparou no farol aceso virado para a estrada. apagou o carro. deu boa noite e foi pra casa da fazenda. andava, como diziam os que trabalhavam ali, como se fosse alma penada.

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