não há nada mais triste quando às seis horas da tarde um cachorro começa a ganir e latir e gemer e você sabe que só falta ele uivar de tanta solidão. passou o dia inteiro sozinho, preso na corrente.
é o vigia da casa vizinha. hoje o trabalhador , sua companhia, não veio. e ele sentiu o calor que fez essa tarde, talvez a água para beber esteja quente. mas o que mais dói nele é saber que está sozinho. caso não fosse lua minguante ele certamente poderia olhar para o céu e ter o conforto de uma luz entre as estrelas.
mas nem isso. os donos estão na casa da cidade, foram ao clube. riem. divertem-se e ele ladra. pede socorro para que eliminem de vez o domingo do calendário. pois é o dia em que ele está mais sozinho. e ele late, ladra, geme, late novamente. a tarde está indo embora. os relógios que adeririram ao horário de verão já marcam mais uma hora. vou até o portão e começo a ladrar para ele, uivo. e ele se acalma. ficamos os dois assim. um bom tempo. entre as grades seus olhos me seguem e os meus o acariciam.
a noite chega definitiva. e não mais nos vemos. nos supomos. e em silêncio, que ele não perceba volto para casa. imagino: ele se deita, o focinho entre as patas , os olhos pendurados de tristeza. e desce por eles,lentamente, para refrescar as plantas secas
um paciente orvalho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário