domingo, outubro 19, 2003

um pouco de brasil


nosso amigo abi-ramia com sensibilidade, vale muito ler a crônica, nos conta de suas andanças pelo rio, sobre suas saudades de niterói onde cresceu e da viagem ao recife para o congresso de metrologia. compara a praia da boa viagem de niterói com a do recife.

eu só tenho a lhe dizer que as boas viagens se parecem sim. conheço as duas. e na nossa, a de niterói, há muitos arrecifes também e eles formam uma espécie de túnel, que só tem os lados, onde arraias, polvos, se escondem. mas é lá para os lados da itapuca.

fiz muito mergulho ali. para ver os peixes coloridos, os corais, as plantas carnivoras que a um toque deixam os dedos como que manchados de sangue. uma boa leitura para começar o domingo. e nos remeter a este brasil com s ou z, tão díspare, tão crioulo na sua mensagem poética mas às vezes, na maioria, desesperançada.


Esther:
Acabo de chegar de viagem. Estive no Rio durante toda a semana que passou.
Com minha mãe, a maior parte do tempo, ela está até que bem para o quadro, vc. sabe. O restante do tempo, trabalho, edificante, né?
Passei rapidamente em Caxambú ontem e não houve tempo, sempre corrido para um contato com você. Almoço corridíssimo no Lopes.
Mas vi, com tristeza, o esvaziamento da cidade. O shopping Maria Tereza praticamente fechado. E pouco turismo vi.
Pensei bastante sobre o que escrever sobre Recife, imaginava que não tinha muito o que dizer, pelo pouco tempo fora o trabalho, e veja o que consegui.
Seguem minhas impressões pessoais de Recife.


Recife 2003, setembro

Saída do Rio, Galeão, Tom Jobim, sábado, manhã, vazio. Avião antigo, gol. Um ônibus União, alado. Sem escalas, inda bem.
Zero para o serviço(?) de bordo. Acreditem: um suco e uma barrinha de cereal.
Recife, contraste, aeroporto cheio. Calor muito. Desembraque complicado, mas com translado garantido.
Passagem ida e volta comprada em agência de turismo, com os translados incluidos. E um city tour.
E lá fomos nós rumo ao Hotel. Praia, Boa Viagem, saudades de Niterói...
Hotel de primeiro mundo, 5 estrelas, lindo de frente ao mar. Eh! marzão besta!
Eu e um novo amigo professor da PUC RJ no mesmo apartamento. Nos conhecemos no voô. Fomos apresentados pela Direção da Sociedade e houve uma espécie de empatia imediata. Muito interessante o Dr.Alcir Orlando Faro. Ótima companhia. Para as conversas metrológicas, e outras, o chopp depois do trabalho, e as caminhadas matutinas.
Malas no quarto e praia de imediato.
Atração atávica exercida pela água salgada nos mineiros e mineirocas tal e qual.
Boa Viagem tem algumas caracteristicas interessantes. Nada parecida com a homônima de Niterói.
Maré baixa, arrecifes, piscina. Mas até os arrecifes. Dali prá frente mar aberto. Maré alta, perigo, além dos arrecifes, tubarôes.
Avisos insistentes na praia, mas sempre um ou outro surfista " amostrado" arriscando sua vida.
Praia muito grande, maior que Barra da Tijuca e Recreio juntas, não perguntei a quem sabe, não medi, usei de meu achômetro. Instrumento de medida muito ruim para um metrologista, devido as altas incertezas de medição que tal instrumento de medidas possui (embora seja ele muito usado por nossos políticos e economistas em particular, todos "acham" alguma coisa)
Termina em Jaboatão dos Guararapes. Lá começa o Brasil...
Areia grossa e escura e interessante sem o cheiro da maresia. Garanto, não sentimos. E nem vi esgoto a céu aberto.
Águas mornas, apesar das chuvas matutinas e noturnas diárias. Noites frescas, agradáveis
Andei muito no calçadão. E na areia. (esta sempre suja como nas praias brasileiras, uma tristeza o descaso da população).Sempre antes das 5. Compromisso com a saúde. E com o trabalho, pois não.
Gente andando desde mais cedo, culto à boa forma.
Interessante também que de quilômetro em quilômetro a calçada muda de cor. Prá facilitar a marcação do cooper.
De repente uma área maior com alguns equipamentos para ginástia ao ar livre: Escadas, barras, pranchas, argolas. Sendo usadas e com gente aguardando a vez. Grupos de idosos fazendo alongamentos com orientação. Moradores de Boa Viagem, certo.
Não vi os detestáveis ônibus circulando na orla.
Bom exemplo para o Rio e Niterói.
O Congresso ocorreu em dois Hotéis, ambos ótimos e na Praia.
E ficavamos circulando entre um e outro, de terno e gravata entre os banhistas, tortura de Procusto, creia.
Inacreditável surrealista, Dali, e não combina nadinha.
Talvez nossas gravatas pudessem servir de bikini para as pernambucanas moreninhas, bonitas. E as iam cobrir mais.
E os de Recife nos vendo como "amostrados", nos olhando desconfiados, (encontro de evangélicos?) muito engraçado também. Sem falar nos turistas muitos. Brasileiros e estrangeiros. Fora de temporada, mas muitos.
Certamente fugindo da violência do nosso Rio, uma pena.
Violência real, propaganda negativa, esvaziamento econômico e cultural, menos turismo, menos empregos e os dirigentes flumineneses, nossos paupérrimos dirigentes, vendo tudo isto e a população servil acomodada não cobra nada. Mas este é outro assunto.
Boa Viagem é hoje uma muralha de edifícios, de mais de 14 andares a maioria, tal Copacabana. As poucas que restaram, são da Aeronáutica, como informaram.
Comércio de orla como os do Rio ou Niterói, quiosques, e vendedores, não muitos. Aluguel de barracas e cadeiras.
Vários quiosques com bandeiras do Flamengo e do Botafogo, eu vi, e estes clubes e os demais, Vasco , Fluminense e até o América, não valorizam suas marcas. Este é outro assunto também...
No domigo , Porto de Galinhas, que tem este nome pois está relacionado com o tráfico de escravos que lé desembarcavam, mesmo com a proibição legal. Chegou o navio com as galinhas, eram o que se dizia. Afinal desde sempre estivemos no Brazil, com z mesmo.
A vila praieira tem esculturas de galinhas por toda a parte feitas em troncos de coqueiros já adormecidos.
Lugar dos recifences abastados. Muitos usineiros, certamente.
Maré baixa, garantia de passeio de jangada até os arrecifes. Sorte nossa, a maré estava "no jeito".
E lá fomos de jangada, com vela aberta pelo vento, fazendo propaganda da Samsung.
Não podia ser do açúcar União? Ou da Tramontina? Ou de qualquer indústria brasileira?
Lugar de turismo internacional, falta de visão de nossos "empresários".
Mas não, todas as incontáveis velas são multinacionais em praias brazileiras. De que reclamo eu?
Como de resto quase tudo no Brazil.
Galinhas, areia dura. Parece cimentado. Águas mornas, boas para o banho.
Água cristalina, até arrisquei um mergulho. Nas piscinas naturais dentro dos arrecifes. Peixes coloridos de aquário, lindos, mansos. Com ração na minha mão eles vinham sem cerimônia
Bons restaurantes de beira praia, na praia, melhor. Com preços salgados. Prá combinar com a água. Como no sul, não há nada mais baratinho, nem os camarôes, nem as deliciosas e antigamente baratas agulhinhas. As lagostas sumiram, preços estratosféricos.
Artezanato bem feito e diferente.
Vale a pena, mas a maré tem de estar baixa. Senão o passeio não será completo.
O que dizer, gostei demais. Necessário passeio, mas não suficiente, pouquíssimo tempo, e a guia de turismo já convocando para a volta.
Segunda e terça, só trabalho. Nem uma cervejinha noturna
Quarta-feira, visita relâmpago à Feira da Boa Viagem, próxima ao hotel, na igreja em reforma, não deu para entrar.
Muitas pequenas esculturas em casca de maderia, reproduzindo o casario antigo de Recife e suas igrejas centenárias. Bem feitas e acabadas. De resto, pouca novidade.
Jantar de confraternização entre os congressistas por adesão. Local de alto luxo, rodízio de tudo. Com trio nordestino. Muita conversa, muita articulação para o congresso de 2006. Volta no fim da noite, depois de uma maravilhosa coilança, afinal muito trabalho para nós no dia seguinte.
No Centro Velho, Histórico, não deu tempo. Pátio de São Pedro (bom papo, novas amizades de boteco, conversa fora, os bebados de sempre, cerveja gelada no ponto, carne de sol, arrumadinho, queijo coalho, tapioca, delícias!), Mercado S. José (comprar regateando tudo, senão os próprios vendedores não acertam negocíos!camarão seco, manteiga de garrafa, roupas, castanha, queijo coalho, artezanato, castanha do pará e temperos, redes, furtas, siri guela, açai, umbu, magas espadas, que cheiro!, siris, peixes, cabritos, buchadas, mais roupas, fumaça, gente, uma grande confusão de cores de cheiros e de sabores, no meio da desordem organizada)...
Olinda, que pena, nem vi. Ladeiras, meninos, guias, histórias. Muitas. Tapioca, macacheira, mais queijo coalho assado na hora, fogareiros carvão.
Mas informações asseguram que está bem cuidada e com turismo forte. Bom isto.
A noite, passeio à beira-mar que termina em um bom boteco, sempre lotado, no final da avenida. 30 minutos de caminhada.
Chopp vários, gerimum com carne de sol gratinada, agulhinhas, macacheira de várias formas, carne de sol com farinha grossa, tira-gostos diversos.
Com os amigos furnenses e os demais.
Quinta a noite, dever cumprido, 23 horas, já na saideira, no boteco invariavelmente lotado, ou mais que isto, encontro absolutamente inesperado.
Recebo um abraço de quem diz meu nome. Um primo niteroiense, mora em Niterói, que havia acabado de chegar em Recife. Também estava indo a serviço da empresa carioca onde ele trabalha.
Não encontrava com ele há muito tempo. Surpresa para todos os nossos acompanhantes. Se não vissem , não acreditariam...
A saideira ficou prá depois. Muito depois. Mas tinha de ir. Táxi na volta da madrugada, pés trocando, perigo.
Sexta madrugada, aeroporto Recife, retorno ao Rio no mesmo ônibus alado, uma tristeza, ampla.

Quer dizer, o trabalho no III Congresso Brasileiro de Metrologia, como já disse foi intenso, produtivo e me ocupou em demasia.
Mas o que eu pude fazer no pouco tempo, não perdi, fiz.

Resumo, Recife precisa ser revisitada, não há dúvida. Mas não indo de ônibus alado.


Meu especial abraço, o amigo,
Abi-Ramia





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