domingo, novembro 02, 2003

quando o desamor despersonaliza

tô vendendo um rim em bom estado.
como é que é zezé?
é. você que anda pelas bandas da internet pode anunciar.
anunciar o que zezé?
meu rim, ora. tenho dois. funcionam perfeitamente. vendo um. fico com outro e ganho dinheiro
chora. desaba no soluço : cel ci nho re ce beu a vi so bre ve. tá des pe di do do ma ta dou ro.
dou água com açúcar. faço festa. mas como?
vendeu uma pedra de boi sem o elói saber. é a pinga sabe comé?
e agora? que queu faço? vendo um rim. tá usado mas em bom estado.
e quando o dinheiro acabar zezé?
aí vendo o pulmão.
você enlouqueceu de vez? quem te meteu isso na cabeça?
a empregada de minha irmã. quando não tinha dinheiro vendia sangue lá em são paulo. ela disse que a gente pode ficar rica vendendo os órgãos.

paro o filme que estava vendo. desligo tudo. passo a tarde com zezé. explico que é melhor vender um terreno. não aceita. foram donos de metade da cidade. ninguém trabalhava. seguiam o ditado: avô rico, filho remediado, neto pobre. trabalhar era coisa de segunda . era sujar o nome. o matadouro era deles. perderam. venderam as terras em torno. a bebida do marido destruiu o resto: terreno de praia. olaria. cachoeiras. córregos. de lembrança têm uma praça na cidade com o nome da família.

num dia de nenhum pro cigarro e para a pinga ele foi tentado e cedeu. virou trabalhador no matadouro. dirigia os ganchos, o cutelo, os bois, os peões menos a própria vida .

zezé hoje dorme aqui. eu a alimento. a cubro. e não sei mais o que fazer. quer mais alguma coisa zezé? eu faço. menos vender um rim ou o pulmão. quando você acordar a vida vai encontrar um jeito pra tudo....
será?
tá garantido. aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiu

ela dorme. venho para esta janela aberta ao mundo com a alma pesada. fujo um pouco da realidade. amanhã o dia será cheio. duas amigas chegam pela manhã. uma vindo dos estados unidos, a marilda. outra do rio, a denise. escuto o ressonar da zezé. mesmo com a porta do quarto fechado.
não sei se conseguirei dormir.....


"Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrêla tu t'escondes
Embuçado nos céus?"


vozes d'áfrica - castro alves


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