sexta-feira, dezembro 05, 2003

alzheimer, o mal escondido



nós pedimos pela aids, pelo câncer, pelas drogas, até pelo ebóla. mas não conversamos sobre alzhaimer ou sobre a doença da bipolaridade, que são banalmente encontradas nas melhores famílias.

às vezes eu me assusto quando vejo alguma brincadeira. mas é preciso brincar. porque a vida não é nada séria. os males da vida é que o são. deve ser muito difícil para uma pessoa bipolar, a antiga psicose maníaco depressiva, conviver com suas duas fases profundas.

li num livro de uma médica norte-americana, que tem a doença da bipolaridade, e é uma pesquisadora respeitada que há um T nas ramificações nervosas que ligam as duas doenças.

alzheimer é uma doença pouco conhecida, que pode ser genética ou não, que pode atingir a qualquer pessoa . ou não. que pode se manifestar a partir dos 65 anos. ou não. ou mais cedo.

no cérebro de quem tem alzheimer as ramificações nervosas não se comunicam, dizem uns, acontece a calcificação dos neurônios, dizem outros. e continuamos sem saber de nada.

caso tenhamos um membro da família com o mal acompanhamos sua decadência mental e física. com pasmo. estupor. e às vezes raiva porque não há uma pesquisa consistente sobre a doença..

quando o filme "no fundo do mar" foi lançado e me contaram a história, de que uma pesquisadora acelerava a produção de enzimas cerebrais nos tubarões mako, raça altamente voraz, para sintetizar um remédio para a cura do mal desejei acreditar. tanto, que vi o filme.

há na ficção uma projeção, uma adivinhação, de alguma coisa que futuramente pode ser constatada. na internete encontra-se milhares de soluções . citam até uma pedra especial que pode recarregar os circuitos cerebrais e fazer com que eles de comuniquem novamente.

as ramificações nervosas do cérebro não se comunicam e a pessoa esquece o que falar, como abrir uma porta, quem é, quem são os que estão a seu redor, até que um dia esquece de respirar.

eu pensei que não houvesse sofrimento no final, quando a pessoa com o mal fica em estado fetal. não se move. precisa de outros para tudo. não emite um ai ou um gesto. os afagos lhe são indiferentes.

uma vez fui ajudar a colocar minha mãe na cadeira especial para o banho. desajeitada que eu sou, a cadeira raspou-lhe a perna. no dia seguinte o local estava preto. e eu mortificada por ter-lhe causado mais uma ferida.

hoje ela está sofrendo com espasmos. sem interrupções. o neurologista recomendou que a internássemos. não o faremos. ela tem 90 anos. está tão idosa! mas tem as pernas ainda bonitas. minha mãe é uma mulher bonita. por fora e por dentro. hoje sabemos que ela sente dor. pois seu rosto demonstra que está sofrendo. minha mãe. o maior ser humano que conheci e com quem tive a honra de conviver. minha mãe. a melhor mãe do mundo.

se eu tenho medo se vir a sofrer do mal de alzheimer? lá em casa todas temos. tememos por nossos filhos e netos. pois numa só família, as quatro irmãs morreram pelo mesmo motivo.

um amigo meu, que tem o mesmo caso a contar, mas já está com o mal, certa vez me disse: eu não sei se gostaria de morrer agora . se morrer agora poderei perder ainda alguns anos de lucidez. e se esperar posso esquecer que preciso morrer. parece piada. mas a situação é esta mesma.

estes são dias de espera. de calma. são dias como outros dias. mas há neles uma gravidade causada pela espectativa. são dias de espera.

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