quarta-feira, novembro 13, 2002

O que me assusta na lida com a Internet � que tudo � para fora. Por exemplo outlook, ICQ... Nada me conforta interiormente. Nada me pede para conviver com meu interior. � uma afli��o, uma agonia. Eu n�o caibo em mim mesma tanto os apelos externos. Preciso engolir tudo preciso deglutir tudo preciso de um corpo mais amplo que o meu para abrigar tantas necessidades. Que nem reconhe�o como minhas. Como nascidas de dentro de mim. Mas trazidas de fora para incorporar o mim em que eu me torno. Por isso acredito que aquela menina matou os pais dela com vontade de matar. N�o foi por causa da Internet n�o foi por causa da televis�o n�o foi por causa do homem do Marlboro. Foi porque ela n�o bastou para si mesma. A sua forma era menor do que o conte�do de apelos a lhe dizer todos dias: voc� pode, voc� � capaz, voc� n�o � entediada. Seus pais est�o velhos ultrapassados. Voc� � jovem. N�o pode esperar que eles morram para viver sua vida. Portanto voc� tem de mat�-los. Ale'm do mais voc� sabe mentir. Voc� aprendeu muito bem a mentir com a vida que te repassam requentada.

Eu sei que posso estar vendo a coisa de forma desfocada. Sei que nada � t�o simples assim. Mais sei que na Internet eu convivo diretamente diariamente visceralmente com o outro com o ter do outro que muitas vezes me fascina agu�a o meu desejo e pura e simplesmente eu n�o me posso atender . Eu gostaria de ter um monte de CDs de livros VHS de CDs para saciar a minha curiosidade de saber. E por mais que eu os tenha n�o existe espa�o cronol�gico para que eu possa desfrutar de todos. N�o existe tempo para que eu possa fazer tudo o que eu desejo mesmo cronometrando os minutos tanto para a leitura tanto para a horta tanto para arrumar a casa tanto para ouvir o disco tanto para ver TV tanto para ver o filme. � imposs�vel. O conte�do que hoje tenho do mundo o melhor e o pior que recebo do mundo � muito maior do que o meu continente.

Estou em v�speras de fazer 61 anos. O tempo � menor ainda. E ainda preciso andar para me exercitar pedalar e conservar o cora��o e diminuir a gordura. Poxa � muita coisa para fazer. Eu precisaria viver 1000 anos. Encontrar a fonte da juventude. E sentir que o tempo n�o pesa sobre mim como uma tampa. E ele pesa. Sem contar que eu ainda gosto de ver e ouvir os passarinhos contar as estrelas e gostaria de aprender aramaico grego japon�s. Mesmo com um passo ap�s outro passo, que � o in�cio de tudo, eu tenho a perfeita consci�ncia a exata consci�ncia de que a tampa me fecha numa panela que ocupar� sete palmos desta vida Severina,* meu pequeno minif�ndio, at� por redund�ncia, quando a vida inteira eu tentei existe num prosaico latif�ndio. E como borboleta borboleteei por a� transformando- me como diz o Herm�nio em especialista em gen�ricos.

Desejava ser mais compartimentada. tipo: um interesse e profundo conhecimento de algum assunto bem espec�fico. Mas agora � tarde e Inez � morta. � aceitar que como toda/o jornalista eu sou especialista em gen�ricos ou generalidades ou fa�o parte daquele grupo que tem uma cultura in�til. Que apenas me d� prazer. Portanto, n�o t�o in�til.


Mas voltando ao caso da garota que matou os pais: se o mundo � ilimitado se ele me aponta com uma perspectiva antes impensada e hoje prov�vel mas que n�o cabe no meu mundo real � fundamental que limites sejam estabelecidos de mim para comigo de mim para com voc� enfim, que limites sejam estabelecidos. E meu limite � aqui dentro desta carne velha e cansada que sonha com o virtual porque toda a posse poss�vel long�nqua � virtual. Mas pensando bem o que � o virtual? Teria sido este o sentimento da garota que matou os pais porque desejou matar os pais? Ou foi a aus�ncia do virtual senso comum, ou de sentimentos de respeito por si pr�pria ou o desejo imediato de ter? Ou como Pierre Rivi�re (�Eu, Pierre Rivi�re, que degolei minha m�e, minha irm� e meu irm�o� edi��o Graal , um caso de parric�dio do s�culo XIX apresentado por Michel Foucault num dossi� de um trabalho coletivo) ela ainda escrever� um memorial para tentar justificar seus atos?

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