terça-feira, setembro 30, 2003

depois conversamos....

Espanha começa a dar heroína para dependentes

Ivan Padilha
de Barcelona da BBC





A droga será ministrada em pílulas, não por injeção
Usuários de heroína estão começando a receber amostras da droga em hospitais da Espanha a partir deste mês. O programa, inédito no país, tem um caráter de pesquisa.

A heroína será ministrada juntamente com metadona e morfina.

A metadona é uma substância que já é utilizada no processo de desintoxicação para aliviar os sintomas de abstinência, mas nem sempre com bons resultados. A morfina é um derivado da heroína, e é normalmente utilizada para aliviar dores.

Caso apresentem bons resultados na estabilização da dependência, a própria heroína e a morfina podem vir a ser utilizadas em tratamentos médicos. O objetivo, nesse caso, será não curar a dependência, mas sim melhorar a qualidade de vida do usuário.

Pílulas

Um dos programas de uso da heroína para estabilização da dependência terá início nos próximos dias nos hospitais Vall d'Hebron, Sant Pau e Mutua de Terrassa, na Catalunha, na região nordeste da Espanha.

Em um primeiro momento, participarão 45 voluntários, divididos em três grupos. Os pacientes permanecerão internados durante dez dias.

Nesse período, cada grupo receberá duas doses diárias de heroína, morfina ou metadona.

As substâncias serão fornecidas na forma de pílulas e ministradas por via oral, e não injetável (maneira mais comum de usar heroína).

Nem o paciente nem o médico saberão qual é a substância ingerida para não influenciar os dados da pesquisa.

Tratamentos fracassados

Em uma segunda fase, participarão outros 90 dependentes que já tenham passado por tratamento à base de metadona, sem sucesso, em pelo menos duas ocasiões.

Nessa etapa, o tratamento será ambulatorial, ou seja, os pacientes não ficarão internados. Durante três meses, eles receberão duas doses diárias de uma dessas três substâncias.

A dose inicial, muito baixa, será aumentada gradativamente até que se chegue a uma concentração mínima que permita a estabilização da dependência.

Aids

"Queremos primeiro diminuir a mortalidade, depois melhorar a qualidade de vida dos pacientes. O ideal seria curar a dependência, mas nem sempre isso é possível, já que nem todos reagem bem à metadona", afirma Joan Colom, diretor do departamento de Dependência de Drogas e Aids do governo da Catalunha.

Dados do governo da Catalunha apontam que 60% dos doentes de Aids da região foram infectados pelo vírus através do uso de seringas compartilhadas.

Dependendo do resultado dos ensaios, os médicos têm esperança de poder usar heroína ou morfina no tratamento de dependentes.

Para os médicos, o uso da morfina seria ainda mais vantajoso, pois já se trata de uma substância comercializada e não criaria tanto preconceito.

Tratamento adequado

Um programa de testes médicos parecido foi implementado em um hospital em Granada, no sul da Espanha, no início de setembro.

A diferença é que, nesse caso, os dependentes estão recebendo heroína por via intravenosa.

"Nunca imaginei receber heroína no hospital", afirma um voluntário do programa de 36 anos, viciado há 16 anos, que não quis se identificar.

"O melhor de tudo é que somos muito bem tratados, como cidadãos, e não como adictos. Isso é o que mais sinto falta", diz.

"Longe das ruas, do tráfico e da violência, o usuário poderá viver melhor e não ficar mais exposto ao perigo de contágio de doenças", afirma Joan Carles March, diretor da Escola Andaluza de Saúde Pública e responsável pela pesquisa.

Política liberal

Como a produção e a comercialização da heroína são proibidas na Espanha, a droga vem da Escócia, no caso do programa de Granada, e da Suíça, no tratamento feito na Catalunha.

O programa de utilização de heroína sob supervisão médica é pioneiro na Espanha, mas ensaios similares já são aplicados em países como Holanda, Suíça e Alemanha.

A Espanha tem uma política bastante liberal em relação às drogas.

Assim como em Portugal e na Itália, na Espanha, o consumo de drogas leves e pesadas é proibido, mas não é punido com prisão.

Quem é flagrado usando drogas, seja maconha ou heroína, não é levado a um tribunal, mas sim a uma comissão formada por médicos e psicólogos para tratamento e prevenção.

É comum ver jovens fumando haxixe em bares, na rua ou na praia.

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