james joyce
em 1903 james joyce solicitou uma ajuda da escritora irlandesa lady gregory quando estava na iminência de ir para paris estudar medicina. esta o apresentou a longworth, diretor do daily express. longworth ofereceu a joyce um emprego no jornal para fazer crítica literária. nesta ocasião lady gregory lançava mais um de seus livros "poets and dreamers" onde tratava sobre os contares irlandeses.
lady gregory e yeats amavam o popular e joyce estava saturado dele. sobre os dramas rurais de yeats, "celtic twilight" joyce já havia feito uma dura crítica e fecha o círculo de sua insatisfação com o texto, do qual traduzo alguns períodos abaixo, sobre o livro de lady gregory o que a deixou profundamente descontente pois menos delicado ele não poderia ter sido.o livro, de leitura agradável e que recebeu tão severa descompostura marca seu rompimento com a tradição artística não somente irlandesa mas com toda a estrutura narrativa de então.
assim como guimarães rosa recriou a arte de contar sem precisar trocar sopapos à torto e à direito, rompendo com a estrutura sintática e léxica e criou um estilo próprio também de difícil versão, como "finnegans wake" de joyce, joyce esperneou, o que não diminui seu valor artístico, em suas criações após "dublinenses". tornou-se um homem voltado aos prazeres do sexo e do amor. quando fala em infantilismo talvez refira-se a este momento de sua vida em que se deixou imbecilizar por romances mal vividos.
nesta crítica,mais do que em outra joyce torna-se pessoal e expressa seus sentimentos nacionalistas dissimulados durante toda uma vida e que só mais tarde ficariam claros em artigos publicados em "piccolo della sera "e em conferências realizadas em trieste.
fica sempre uma clareza para mim quando se fala em artista, obra e vida: nunca misturo uma com a outra, pois sempre sairei decepcionada. o racionalismo de quem trabalha a linguagem, após a explosão da criação de um texto não confere com o emocional do ser humano que nos fala através das vozes de tantos personagens.
"segundo aristóteles, toda especulação começa com um sentimento de assombro, um sentimento próprio da infância e, se a especulação é inerente à meia idade o natural será que o fruto da mesma ou seja, a sabedoria gerada por ela, aconteça no último período da vida, o que coroa os anteriores, a velhice.
atualmente, porém, as pessoas mesclam a infância com a meia idade e a antiguidade pois os que conseguem chegar, graças aos avanços da civilização, à longevidade parecem menos sábios do que o foram anteriormente ao passo que as crianças que mal começam a andar e falar dão provas de ter mais e mais senso comum. talvez em um breve futuro os jovens de barbas compridas aplaudam os idosos em suas partidas de futebol ao arremessar uma bola contra a vidraça do vizinho.
isto pode acontecer na irlanda se levarmos em conta a visão de lady gregory sobre a maturidade de seu país. no seu mais recente livro ela se esquece das lendas irlandesas e sua heróica juventude para debruçar-se sobre a tristeza e senilidade da terra. a partir do meio, seu livro nada mais é do que relatos de velhos e velhas do oeste da irlanda. estes anciãos sabem infinidades de histórias sobre gigantes e bruxas, de cães e punhais de negra empunhadura, e as contam prolixamente, uma após outra, repetindo-as sempre (não esqueçamos que os idosos são pessoas que dispõem de muito tempo) sentados junto ao fogo ou numa praça.
é difícil julgar sua sabedoria de encantamento e de curas através de ervas medicinais, já que este é um tema exclusivo para especialistas, pois podem comparar as diferenças existentes entre costumes de um e outro país. além do mais é prudente manter-se afastado de ciências mágicas, já que os ventos mudam e enquanto um derruba e fere maçãs silvestres outros podem levar qualquer pessoa à loucura.
no entanto, estes relatos podem ser julgados mais facilmente, apenas os relatos pois eles suscitam um sentimento que não é precisamente o de assombro, que constitui o início da especulação . quem os narram são pessoas idosas e sua imaginação não é a da infância. o narrador conserva a estrutura do maravilhoso porém sua mente está adormecida, fatigada.
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"em resumo, a obra de lady gregory, quando se centra em "pessoas do povo" nos presenteia com toda sua senilidade, a mesma mentalidade que mr.yeats exibiu em seu melhor livro "the celtic....." segue por aí ainda citando mallarmé como escritor de menos valia. finalmentge esculacha com a epígrafe do livro que é um verso de whitman: "as batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que as ganhamos" justificando que a escrita de lady gregory foi feita para os vencidos.
"das lutas materiais e espirituais que durante tanto tempo atormentam a irlanda ficaram muitas crenças e recordações, uma principalmente: de que é incurável a vilania das forças que a avassalaram...." neste parágrafo joyce acompanha yeats em sua crença de que o materialismo dos inglêses ameaça o idealismo, inclusive as superstições irlandêsas, "cujos velhos e velhas quase parecem julgar a si mesmos quando contam suas desventuradas histórias".
que a partir de hoje, de ontem, de amanhã, em algum momento de nossa escrita como brasileiros, possamos romper com a tradição de não contarmos tristes histórias também, contares sobre uma nação envilecida pelo materialismo e a truculência de seus representantes. e passemos a reconstruir nossas vidas sem que nos roubem a todo momento o direito de sermos cidadãos da terra de vera cruz, finalmente, brasil.
hoje, dia 16, comemora-se o bloomsday no mundo inteiro. e nós? eu, de minha parte, acompanho os mirages rasgando o céu de caxambu.
* do livro: "escritos críticos" de james joyce
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