terça-feira, junho 14, 2005





pequena antologia do nada




quando me aposentei na universidade federal fluminense o reitor de então, josé raymundo martins romêo, recusou-se a assinar meu pedido de aposentadoria. alguns amigos reuniram-se lá em casa, dentre eles cristiane romêo e maria antonia botelho para saber se eu estava certa do que pretendia fazer. já havia explicado para todos as razões : não acreditava mais na instituição universitária, dentre outros assuntos.

quando josé raymundo foi empossado pela segunda vez reitor da uff, após nova eleição, eu já lhe comunicara que desejava me aposentar. isto em conversa no gabinete dele, na reitoria. e o motivo era o mesmo: não acreditava na instituição universidade, como não cria mais em um monte de brasil e gentes. e quando a gente descrê de gente nada melhor do que conviver com os chamados animais.

ele me perguntou: o que deve ser mudado na universidade ?

(ora, com o barreto neto como reitor, em 65, vivemos a experiência de a uff servir de laboratório para formar o pensamnento universitário no brasil. saíamos de faculdades isoladas unidas quase por acidente de percurso para constituir universidades com sua estrutura de reitoria com um reitor, conselho universitário, etc... até os nossos dias de prós-reitorias, ou seja, de uma pretensa descentralização do poder. foi extinta a cátedra vitalícia, feita a reforma universitária e administrativa- a uff como laboratório para isto- e recebi a vaga incumbência de criar o espírito universitário, ou seja aglutinar pensamentos semelhantes em torno de uma só idéia : o prazer do saber e da arte dividido e multiplicado ad infinitum.)

disse que a universidade brasileira, o ensino, o mec, precisavam ser implodidos e começar de novo. mas como seria impossível ir além de nossos muros ele me desafiou: escreva como deveremos agir , me entregue e verei se posso aprovar suas idéias. imediatamente fui para a sala da secretaria, datilografei... não , nesta época nem havia computador assim de uso comum, os computadores eram usados por professores em seus centros de estudo e pesquisa. o que de mais moderno havia, lembro bem , de uso individual era o tk 85 lá de casa.
esbocei um planejamento que ele aprovou em primeira instânccia. faltava detalhar o projeto. mas a síntese estava aceita.


(lembram que na época vivíamos sob a égide da reserva de mercado? e não poderíamos usar para fins pessoais computadores? sei que entrava por aí muito da teroria da conspiração do governo militar)

bem, resolvido de onde iniciaria o desmanche, com sala e funcionários lá fui eu inventar como minar uma estrutura em seu interior, preservando o exterior para inglês ver e, enfim, quando o processo de mudança estivesse pronto fazer surgir novo arcabouço .

gente eu sou muito tonta, além der burra em acrditar ser possível algo semelhante. em quantas vaidades tocaria! ô presunção minha, eita veleidade idiota, irra! esta incapacidade em nomear bosta de bosta.

pois foi assim que me aposentei. levando de quebra para casa três moções de repúdio do conselho universitário, das quais me orgulho, três chamamentos para argüição do pt, às quais compareci.

ah, por que? porque a universidade já estava dividida em esquemas políticos partidários e ao fazer alguma coisa era preciso cuidar que a direita , esquerda, centro, abstêmios, alcóolatras, todos ficassem satisfeitos. lógico que malandramente criei uma comissão de representantes de cada área política e toda decisão era referendada por escrito por todos os membros desta comissão. e nela é que foi escrito o breviário que dá título a esta matéria: pequena antologia sobre o nada. ou melhor, não foi escrita, mas exercitado.

nos reuníamos às sete da manhã de quarta-feira, eu apresentava as idéias e tocava as que eram aprovadas. quando o pt me chamava para ser argüida sempre levava a ata destas reuniões com a assinatura de seu mais ilustre membro concordando , em nome do partido, com a ação. não esquecer do pc, o marxismo vivo, que pontuava nas rodas da economia universitária e lá estava também representado.

em síntese: maria antonia botelho se aponseta também, depois de mim. nossas reuniões de fim de semana continuavam. os amigos aposentados e os da ativa se encontravam cada sábado na casa de um para almocar ou jantar e trocar figurinhas. aí , numa destas reuniões, maria antonia do nada me pergunta: esther, o mundo é isto mesmo que estamos vendo aqui do lado de fora? esta coisa sem educação e sem jaça?

eu já criava gado nesta época, depois de ter passado um tempo procurando passar o que sabia em trabalhos de base para o pt, em associações de bairro e alfabetizando adultos e crianças. é , maria antonia, respondi. é. era grande o choque quando passávamos a viver a vida extra muros da universidade.

há anos não tenho mais notícia de maria antonia. sei que ela retornou para são fidélis, onde tem a fazenda esmeralda e cria peixes. ela conseguia as violetas mais lindas que já vi na vida. de muda em muda, de foilha em folha obtinha florações maravilhosas.

pois é, o tempo passa.... e repararam quanto escrevi, que tanto de palavras e letras usei e falei exatamente sobre o nada?
zezé do celsinho tem razão; "este mundo esther", diz ela cheia de erres," é dividido assim: pra dentro da porteira e pra fora da porteira, se não as coisas fogem, né mesmo?"




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